terça-feira, 26 de agosto de 2008

"Cinema e Saúde"


Recebi esta reportagem da amiga
Teresa e achei muito interessante.
Divido com os amigos aqui neste
meu cantinho. Espero que gostem.
Bjks, Yara




Não se espante se o médico lhe prescrever um filme, além do remédio

Tatiana Pronin (Editora do UOL Ciência e Saúde)

Enfrentar uma doença é, na melhor das hipóteses, desagradável. Aprender sobre ela também não é muito empolgante, a não ser que você seja um profissional de saúde com bastante vocação.




A tarefa fica mais fácil quando a lição envolve cenário, maquiagem, trilha sonora, luzes e movimentos de câmera. Talvez por isso seja tão comum médicos e psicoterapeutas indicarem filmes para seus pacientes. Afinal, não é difícil ter pelo menos uma idéia do que é a esquizofrenia depois de assistir ao drama de John Nash, o matemático interpretado por Russell Crowe em "Uma Mente Brilhante". Ou do que é o TOC (Transtorno Obsessivo-Compulsivo), que aflige o personagem de Jack Nicholson em "Melhor é Impossível". E, até para os médicos, os filmes podem ser ferramentas para reflexões sobre ética e valores.

Difundir conhecimento sobre aspectos ligados a saúde e emoções por meio do cinema foi o objetivo de um projeto criado pelo Centro de Estudo e Pesquisas do Hospital Samaritano, em São Paulo, em 2001. Desde então, uma vez por mês, a equipe coordenada pela psiquiatra June Melles Megre escolhe um filme para ser exibido à comunidade, seguido de um debate. Segundo a médica, é uma forma de estimular a reflexão sobre as patologias e o auto conhecimento. "Poderia ser outra forma de arte, mas achamos que o cinema é mais acessível.”
Em uma etapa, o hospital exibiu filmes sobre temas ligados a psiquiatria, como o próprio filme sobre Nash, além de "Garota Interrompida" (sobre transtorno de personalidade 'borderline', ou limítrofe) e "O Lenhador" (sobre pedofilia), entre outros. Nos debates sobre sexualidade, um dos escolhidos foi "A Bela da Tarde". E, quando o assunto foi morte, "A Balada de Narayama" foi um dos pontos de partida.
O que importa, diz ela, não é a qualidade do longa-metragem, mas o quanto é possível extrair sobre determinada condição. É o caso de "Refém do Silêncio", estrelado por Michael Douglas, que, apesar dos clichês, é um dos poucos que trata bem a questão do estresse pós-traumático, na opinião da médica.
O filme que teve maior audiência no hospital, aliás, também está longe de ser uma obra-prima: você se lembra de "Encaixotando Helena", em que o médico interpretado por Julian Sands amputa as pernas e os braços de sua amada para cultuá-la? "O ciúme doentio leva a pessoa a tolher a outra; isso acontece na vida real", justifica a médica.
Megre diz que também indica filmes para seus pacientes de consultório. Por exemplo, quando se trata de alguém que está tentando largar a bebida, uma opção pode ser "O Show Deve Continuar", ("All That Jazz", em inglês). O musical, que também foi exibido nos debates sobre a morte do Samaritano, descreve as fases que em geral as pessoas experimentam ao lidar com algum tipo de perda: negação, raiva, negociação, depressão e aceitação.
Claro que o cinema não tem, necessariamente, compromisso com a verdade, o que envolve riscos quando a idéia é explicar uma patologia para pacientes e familiares. É por isso que os especialistas são unânimes: a conversa depois do filme é imprescindível, para que se separe o joio do trigo, o "colorido" das telas dos fatos reais.
Se não houver orientação, a sugestão pode até atrapalhar, em vez de ajudar. Uma garota com anorexia que assista ao mexicano "Maus Hábitos", atualmente em cartaz, pode encarar a mensagem da personagem doente (uma mulher obcecada por dietas) como um incentivo à recusa em comer. E o simples fato de identificar sua condição nas telas pode gerar um sofrimento que, eventualmente, pode fazer mal ao paciente. "O filme 'Mar Adentro', por exemplo, é belíssimo, mas não é para ser visto a qualquer hora", comenta Megre, referindo-se ao drama de um tetraplégico que luta pelo direito de morrer.
"Filmes sobre doenças, em geral, são feitos a partir de uma pesquisa, mas não há aprofundamento", ressalta, também, a médica de família Priscila Baptistão. Ela cita o clássico "Óleo de Lorenzo" como exemplo de longa que, além de explicar uma doença, revela algo que tem sido cada vez mais comum nos consultórios: "Muitos pacientes fazem pesquisas sobre a doença, nem sempre em fontes confiáveis, e passam a questionar o tratamento", conta.
Na história real que inspirou o filme, o resultado foi positivo: inconformado, o casal mergulha em livros de medicina e acaba colaborando com a descoberta de uma terapia contra a enfermidade do filho. Mas, na maioria dos casos, o profissional tem de convencer os pacientes a tomarem o remédio prescrito, apesar dos efeitos colaterais. Ou explicar que a nova droga, anunciada como panacéia, pode ter efeitos indesejados a longo prazo - como sugere, com os exageros típicos de Hollywood, a ficção "Eu Sou a Lenda" sobre um vírus criado por cientistas para combater o câncer que acaba dizimando a humanidade.




Entre as aulas de anatomia, médicos aprendem a dissecar um filme.



Filmes sobre temas ligados a saúde não ajudam apenas os médicos a explicarem diagnósticos aos pacientes. Eles também ajudam os professores de medicina a explicar conceitos que não aparecem no microscópio aos alunos de faculdade.

Esse foi o objetivo do médico Ricardo Tapajós, supervisor da divisão de moléstias infecciosas do Hospital das Clínicas da USP (Universidade de São Paulo), ao escrever uma tese sobre o longa-metragem "E a Vida Continua".

O semi-documentário, de 1993, narra a trajetória de Don Francis, um médico que vivencia as primeiras descobertas sobre a Aids. Mostra o descaso das autoridades na fase inicial da epidemia, os primeiros casos confirmados da doença e a polêmica disputa do pesquisador americano Robert Gallo pela autoria da descoberta (o francês Luc Montagnier também havia isolado o retro vírus).

A análise de Tapajós não apenas gerou debates em salas de aula, como resultou na criação de uma disciplina na faculdade de medicina da USP, chamada "Cinema e Aids".

Tapajós explica que "...E a Vida Continua" aborda temas essenciais da medicina, como morte e sofrimento, segredo médico e eutanásia, só para citar alguns exemplos.

"Além da excelência técnica, o bom médico deve ter traços humanísticos, entender que o paciente tem valores diferentes dos seus", afirma. Se administrar a dose certa de penicilina é algo que se pode aprender nos livros, isso não vale para a maneira correta de contar uma notícia ruim para o paciente. E é aí que entra o papel das artes no ensino médico.

Para o infectologista, o próprio fato de muitos médicos indicarem filmes mostra como o exercício da profissão não está limitado ao conhecimento científico. "Recomendar um filme para reforçar o processo terapêutico transcende a prática médica - é algo que envolve a intuição."



"Maus Hábitos" mostra o drama de quem sofre de anorexia


Elena é uma mulher magra, perfeccionista e frustrada por não conseguir convencer a filha rechonchuda a fazer dieta. "Ninguém gosta de gordos", diz à menina, sem saber que o marido está interessado mesmo é na aluna que esbanja curvas e come sem culpa. Outra personagem, Matilde, é uma freira que se recusa a comer por acreditar que o sacrifício é capaz de salvar a cidade de uma enchente. O filme "Maus Hábitos", que entrou em cartaz recentemente no Brasil, aborda com riqueza de detalhes a anorexia, doença que afeta principalmente mulheres e tem sido associada ao universo da moda.
Especialista em transtornos alimentares, o psiquiatra Alexandre Azevedo, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clinicas, da USP (Universidade de São Paulo), foi assistir ao filme por indicação de uma paciente, que identificou sua condição nas telas. "O filme é bastante realista na apresentação das crenças que um portador do transtorno apresenta; claro que com certo 'colorido', por se tratar de uma ficção", critica. Mas ele diz que não o recomendaria para qualquer um: "No caso de uma paciente ainda resistente ao tratamento, ela vai ouvir o discurso da personagem como sendo verdadeiro e, assim, reforçar as crenças que tem sobre a doença”.
"Maus Hábitos" traz à tona a hipótese, que já foi tema de estudo, de que muitas das santas da Idade Média sofriam de anorexia. A crença era de que, quanto maior a força para manter um jejum auto-imposto, mais a fé seria acreditada e mais próxima de Deus estaria a religiosa. Alguns especialistas sugerem, inclusive, que a desnutrição seria a causa das alucinações visuais e auditivas narradas por essas mulheres.
Apesar de o contexto ser diferente, as anoréxicas de hoje também estão presas a um tipo de crença: a de que ser magra é sinônimo de sucesso, como conta o médico ao UOL Ciência e Saúde.

UOL Ciência e Saúde: Elena, a mãe anoréxica de "Maus Hábitos", é extremamente perfeccionista. Essa também é uma característica de quem sofre do transtorno?

Azevedo: É uma característica habitual. Os portadores de anorexia nervosa, particularmente do subtipo restritivo (com dietas rigorosas e intensa perda de peso) são comumente perfeccionistas. Trata-se, em geral, de excelentes alunos, educados, discretos e elogiados por todas essas condutas. Sem dúvida, o grande portador de transtorno alimentar no filme é o personagem da mãe. Suas crenças de que pessoas obesas são infelizes são induzidas à filha.

UOL Ciência e Saúde: O colega gordinho da menina diz ter encontrado um jeito de emagrecer sem sofrer: mastigar, mastigar e depois cuspir. Portadores de anorexia costumam usar estratégias como essa?

Azevedo: Sim. São considerados métodos inadequados de compensação. Os mais comuns são vômitos auto-induzidos, prática exagerada de exercícios, uso de laxantes e diuréticos e uso de substâncias que promovem perda de peso (como anorexígenos, cocaína, hormônio tireoideano e outros estimulantes). Mastigar e cuspir são uma das técnicas. Alguns chegam ao extremo de ingerir detergentes com a intenção de promover a diluição das gorduras, mas isso é menos freqüente.

UOL Ciência e Saúde: A postura de reprovação de algum parente, a exemplo do que ocorre no filme, pode ser um deflagrador do transtorno?

Azevedo: Os deflagradores costumam ser a pressão sobre a necessidade de perder peso e a crença, imposta ou não por outra pessoa, de que a magreza traz sucesso em qualquer área da vida. Assim, inicia-se uma dieta de restrição e o indivíduo ganha atenção e elogios sobre a sua capacidade em perder peso. Em um indivíduo geneticamente predisposto, esse pode ser o gatilho para o desejo de perder cada vez mais peso e desencadear a síndrome alimentar pela distorção de imagem corporal (este é o sintoma central nos transtornos alimentares: enxergar-se maior do que de fato é).

UOL Ciência e Saúde: Na sua opinião, o filme pode ajudar pacientes e familiares a entenderem melhor a doença? Você o indicou ou indicaria?

Azevedo: O filme só poderá ser indicado a pacientes que realmente já adquiriram crítica sobre a doença, ou seja, percebem-se doentes e desejam tratar-se e melhorar. No caso de uma paciente ainda resistente ao tratamento, ela vai ouvir o discurso da personagem como sendo verdadeiro e, assim, reforçar as crenças que tem sobre a doença. Nesse caso, filmes como esse podem até agravar os sintomas. No caso de pacientes adultas, que participam do tratamento e desejam melhorar, o filme pode ajudar a compreender a origem da doença e o quão vazia é a crença de que um corpo magro é garantia de sucesso. Além disso, ela pode se identificar com o sofrimento do personagem e isso lhe dará motivação para melhorar.

No divã ou na sala de cinema, o que importa é a reflexão.

Temas como medo, amor, traição, sexo e morte - que rendem bilhões à indústria do cinema - são a matéria-prima do trabalho de psicólogos, analistas e psiquiatras. Indicar filmes para os pacientes, portanto, é extremamente comum entre os profissionais que lidam com o comportamento humano.

O conceito de "cinematerapia" é tema de livros como "The Motion Picture Prescription" ("O cinema como remédio", sem tradução no Brasil), do psicólogo Gary Salomon, e "Filmtherapy, I film che ti aiutano a stare meglio" ("Cinematerapia, os filmes que o ajudam a estar melhor", também sem tradução), do psiquiatra italiano Vincenzo Mastronardi.

Os especialistas acreditam que, observando uma situação de fora, é mais fácil refletir sobre nossas próprias atitudes e compreender melhor as reações do outro. Mas não há uma metodologia: a dica surge espontaneamente, de acordo com o momento da terapia. A única regra é que as impressões sejam discutidas depois.

Acostumado a lidar com os conflitos típicos da adolescência, o psiquiatra Jairo Bouer conta que já indicou filmes para aprofundar assuntos levados ao consultório. Na sua lista estão "Kids" ("mostra como a droga pode ter impacto na vida da pessoa"), "Elefante" ("trata do sentimento de exclusão e do bullying") e "Juno" ("aborda a questão da gravidez na adolescência").

Em um Grupo de Discussão publicado no UOL Ciência e Saúde no dia 15/07/2008, os internautas foram convidados a citar exemplos de filmes que tivessem sido úteis em alguma fase difícil da vida. "Closer - Perto Demais", sobre os conflitos amorosos de quatro personagens, foi um dos mais citados. A terapeuta de casal e família Poema Ribeiro entende a preferência: "É um painel vívido do que temos trabalhado no consultório: uma insatisfação constante em relação ao outro, porque as pessoas fazem apostas irreais". Como bem comentou um internauta, "Closer" é melhor que uma 'DR'(abreviatura para 'discutir a relação')".

Outros filmes mencionados no grupo também já foram "prescritos" pela terapeuta. "Sob o Sol da Toscana" é um deles: "É uma história sobre reconstrução pessoal e ensina que compartilhar a felicidade dos outros também pode nos beneficiar", interpreta Poema. Outro, mais recente, é "PS: Eu Te Amo": "lembra o quanto é importante olhar para o outro como ele realmente é". Nesse caso, levar o parceiro ao cinema pode ser mais terapêutico ainda.

(Fonte: http://cienciaesaude.uol.com.br)

Galeria de fotos e sinopse dos filmes: http://cienciaesaude.uol.com.br/album/080724cinema_album.jhtm?abrefoto=19


Música: Enya







Um comentário:

Anônimo disse...

Ya, adorei o seu blog da semana. Muito interessante. Fiquei agora interessada em ver todos esses filmes. Um dos citados já tive muita vontade de ver na ocasião que saiu. Foi Mar Adentro. Li tudo a respeito. Sei que foi um grande filme. Ainda vou vê-lo e, pelo menos, mais uma meia dúzia dos citados no texto de seu blog.
Beijão da Tia Nice.