Não se espante se o médico lhe prescrever um filme, além do remédio
Enfrentar uma doença é, na melhor das hipóteses, desagradável. Aprender sobre ela também não é muito empolgante, a não ser que você seja um profissional de saúde com bastante vocação.
A tarefa fica mais fácil quando a lição envolve cenário, maquiagem, trilha sonora, luzes e movimentos de câmera. Talvez por isso seja tão comum médicos e psicoterapeutas indicarem filmes para seus pacientes. Afinal, não é difícil ter pelo menos uma idéia do que é a esquizofrenia depois de assistir ao drama de John Nash, o matemático interpretado por Russell Crowe em "Uma Mente Brilhante". Ou do que é o TOC (Transtorno Obsessivo-Compulsivo), que aflige o personagem de Jack Nicholson em "Melhor é Impossível". E, até para os médicos, os filmes podem ser ferramentas para reflexões sobre ética e valores.
Difundir conhecimento sobre aspectos ligados a saúde e emoções por meio do cinema foi o objetivo de um projeto criado pelo Centro de Estudo e Pesquisas do Hospital Samaritano, em São Paulo, em 2001. Desde então, uma vez por mês, a equipe coordenada pela psiquiatra June Melles Megre escolhe um filme para ser exibido à comunidade, seguido de um debate. Segundo a médica, é uma forma de estimular a reflexão sobre as patologias e o auto conhecimento. "Poderia ser outra forma de arte, mas achamos que o cinema é mais acessível.”

Entre as aulas de anatomia, médicos aprendem a dissecar um filme.
Filmes sobre temas ligados a saúde não ajudam apenas os médicos a explicarem diagnósticos aos pacientes. Eles também ajudam os professores de medicina a explicar conceitos que não aparecem no microscópio aos alunos de faculdade.
Esse foi o objetivo do médico Ricardo Tapajós, supervisor da divisão de moléstias infecciosas do Hospital das Clínicas da USP (Universidade de São Paulo), ao escrever uma tese sobre o longa-metragem "E a Vida Continua".
O semi-documentário, de 1993, narra a trajetória de Don Francis, um médico que vivencia as primeiras descobertas sobre a Aids. Mostra o descaso das autoridades na fase inicial da epidemia, os primeiros casos confirmados da doença e a polêmica disputa do pesquisador americano Robert Gallo pela autoria da descoberta (o francês Luc Montagnier também havia isolado o retro vírus).
A análise de Tapajós não apenas gerou debates em salas de aula, como resultou na criação de uma disciplina na faculdade de medicina da USP, chamada "Cinema e Aids".
Tapajós explica que "...E a Vida Continua" aborda temas essenciais da medicina, como morte e sofrimento, segredo médico e eutanásia, só para citar alguns exemplos.
"Além da excelência técnica, o bom médico deve ter traços humanísticos, entender que o paciente tem valores diferentes dos seus", afirma. Se administrar a dose certa de penicilina é algo que se pode aprender nos livros, isso não vale para a maneira correta de contar uma notícia ruim para o paciente. E é aí que entra o papel das artes no ensino médico.
Para o infectologista, o próprio fato de muitos médicos indicarem filmes mostra como o exercício da profissão não está limitado ao conhecimento científico. "Recomendar um filme para reforçar o processo terapêutico transcende a prática médica - é algo que envolve a intuição."
"Maus Hábitos" mostra o drama de quem sofre de anorexia

UOL Ciência e Saúde: Elena, a mãe anoréxica de "Maus Hábitos", é extremamente perfeccionista. Essa também é uma característica de quem sofre do transtorno?
Azevedo: É uma característica habitual. Os portadores de anorexia nervosa, particularmente do subtipo restritivo (com dietas rigorosas e intensa perda de peso) são comumente perfeccionistas. Trata-se, em geral, de excelentes alunos, educados, discretos e elogiados por todas essas condutas. Sem dúvida, o grande portador de transtorno alimentar no filme é o personagem da mãe. Suas crenças de que pessoas obesas são infelizes são induzidas à filha.
UOL Ciência e Saúde: O colega gordinho da menina diz ter encontrado um jeito de emagrecer sem sofrer: mastigar, mastigar e depois cuspir. Portadores de anorexia costumam usar estratégias como essa?
Azevedo: Sim. São considerados métodos inadequados de compensação. Os mais comuns são vômitos auto-induzidos, prática exagerada de exercícios, uso de laxantes e diuréticos e uso de substâncias que promovem perda de peso (como anorexígenos, cocaína, hormônio tireoideano e outros estimulantes). Mastigar e cuspir são uma das técnicas. Alguns chegam ao extremo de ingerir detergentes com a intenção de promover a diluição das gorduras, mas isso é menos freqüente.
UOL Ciência e Saúde: A postura de reprovação de algum parente, a exemplo do que ocorre no filme, pode ser um deflagrador do transtorno?
Azevedo: Os deflagradores costumam ser a pressão sobre a necessidade de perder peso e a crença, imposta ou não por outra pessoa, de que a magreza traz sucesso em qualquer área da vida. Assim, inicia-se uma dieta de restrição e o indivíduo ganha atenção e elogios sobre a sua capacidade em perder peso. Em um indivíduo geneticamente predisposto, esse pode ser o gatilho para o desejo de perder cada vez mais peso e desencadear a síndrome alimentar pela distorção de imagem corporal (este é o sintoma central nos transtornos alimentares: enxergar-se maior do que de fato é).
UOL Ciência e Saúde: Na sua opinião, o filme pode ajudar pacientes e familiares a entenderem melhor a doença? Você o indicou ou indicaria?
Azevedo: O filme só poderá ser indicado a pacientes que realmente já adquiriram crítica sobre a doença, ou seja, percebem-se doentes e desejam tratar-se e melhorar. No caso de uma paciente ainda resistente ao tratamento, ela vai ouvir o discurso da personagem como sendo verdadeiro e, assim, reforçar as crenças que tem sobre a doença. Nesse caso, filmes como esse podem até agravar os sintomas. No caso de pacientes adultas, que participam do tratamento e desejam melhorar, o filme pode ajudar a compreender a origem da doença e o quão vazia é a crença de que um corpo magro é garantia de sucesso. Além disso, ela pode se identificar com o sofrimento do personagem e isso lhe dará motivação para melhorar.
No divã ou na sala de cinema, o que importa é a reflexão.

Temas como medo, amor, traição, sexo e morte - que rendem bilhões à indústria do cinema - são a matéria-prima do trabalho de psicólogos, analistas e psiquiatras. Indicar filmes para os pacientes, portanto, é extremamente comum entre os profissionais que lidam com o comportamento humano.
O conceito de "cinematerapia" é tema de livros como "The Motion Picture Prescription" ("O cinema como remédio", sem tradução no Brasil), do psicólogo Gary Salomon, e "Filmtherapy, I film che ti aiutano a stare meglio" ("Cinematerapia, os filmes que o ajudam a estar melhor", também sem tradução), do psiquiatra italiano Vincenzo Mastronardi.
Os especialistas acreditam que, observando uma situação de fora, é mais fácil refletir sobre nossas próprias atitudes e compreender melhor as reações do outro. Mas não há uma metodologia: a dica surge espontaneamente, de acordo com o momento da terapia. A única regra é que as impressões sejam discutidas depois.
Acostumado a lidar com os conflitos típicos da adolescência, o psiquiatra Jairo Bouer conta que já indicou filmes para aprofundar assuntos levados ao consultório. Na sua lista estão "Kids" ("mostra como a droga pode ter impacto na vida da pessoa"), "Elefante" ("trata do sentimento de exclusão e do bullying") e "Juno" ("aborda a questão da gravidez na adolescência").
Em um Grupo de Discussão publicado no UOL Ciência e Saúde no dia 15/07/2008, os internautas foram convidados a citar exemplos de filmes que tivessem sido úteis em alguma fase difícil da vida. "Closer - Perto Demais", sobre os conflitos amorosos de quatro personagens, foi um dos mais citados. A terapeuta de casal e família Poema Ribeiro entende a preferência: "É um painel vívido do que temos trabalhado no consultório: uma insatisfação constante em relação ao outro, porque as pessoas fazem apostas irreais". Como bem comentou um internauta, "Closer" é melhor que uma 'DR'(abreviatura para 'discutir a relação')".
Outros filmes mencionados no grupo também já foram "prescritos" pela terapeuta. "Sob o Sol da Toscana" é um deles: "É uma história sobre reconstrução pessoal e ensina que compartilhar a felicidade dos outros também pode nos beneficiar", interpreta Poema. Outro, mais recente, é "PS: Eu Te Amo": "lembra o quanto é importante olhar para o outro como ele realmente é". Nesse caso, levar o parceiro ao cinema pode ser mais terapêutico ainda.
(Fonte: http://cienciaesaude.uol.com.br)
Galeria de fotos e sinopse dos filmes: http://cienciaesaude.uol.com.br/album/080724cinema_album.jhtm?abrefoto=19
Música: Enya
Um comentário:
Ya, adorei o seu blog da semana. Muito interessante. Fiquei agora interessada em ver todos esses filmes. Um dos citados já tive muita vontade de ver na ocasião que saiu. Foi Mar Adentro. Li tudo a respeito. Sei que foi um grande filme. Ainda vou vê-lo e, pelo menos, mais uma meia dúzia dos citados no texto de seu blog.
Beijão da Tia Nice.
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