Mesmo solitários, não deixamos de ser duas partes, uma, deseja ficar em profundo silêncio, outra quer gritar ao mundo o desejo de amar.
Mesmo doentes, não deixamos de ter dois desejos, um quer a cura imediata, sair da prostração, outro quer permanecer cercado de cuidados, atenção.
Mesmo perdidos em nossos devaneios, não deixamos de desejar dois destinos, um quer a glória passageira da fama, outro quer apenas a vitória sobre nossos dramas, ser feliz no anonimato do tempo.
Somos assim, côncavo e convexo, luz e escuridão em uma mesma alma, uma parte que ri de qualquer coisa, e outra que chora por nada.
Contradição e certeza, amor e desinteresse, paz e guerra, desejos e saciedade. Estranhos personagens que habitam em nós, nessa novela chamada vida.
Por isso, não se estranhe! Viva cada momento da sua vida com intensidade, lembre-se mais das coisas boas, e, por favor, esqueça-se dos maus momentos.
Aposente as dores, distraia a ilusão, faça um trato com o amor, e ame muito, e mais do que nunca, esqueça qualquer rancor, perdoe todas as ofensas, todas as pessoas, as que já fizeram algo que você não gostou, e aquelas que ainda nem erraram.
Seja livre!
Tudo só vale a pena com a liberdade, até para dizer que quer ficar preso ao velho amor, preso ao velho emprego, preso ao velho sonho, preso em você. Isso é liberdade total!
Essa capacidade de dizer que se ama e que vale a pena, "ser feliz é uma doce prisão da nossa liberdade de ser simplesmente o que somos! "
Mário de Miranda Quintana nasceu em Alegrete, no dia 30 de Julho de 1906. Pela comemoração do centenário de seu nascimento, O anjo poeta, como era chamado, deve estar rindo de tanta pompa que está se criando em torno da data. Quintana sempre foi uma figura simples. De hábitos e frases. Sua poesia era simples e direta, mas cheia de subjetividade.
Talvez a principal marca deixada pelo poeta tenha sido justamente sua humildade. Não era raro vê-lo caminhando pelas ruas do centro da cidade, passos lentos, sorriso fácil, conversando e cumprimentando a todos. Quintana era alegretense, mas fundiu-se tanto à capital gaúcha que fica difícil dissociar sua imagem e sua poesia das ruas e paralelepípedos de Porto Alegre. Como diria o próprio Mário:
Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei...
A identificação com a cidade sempre esteve presente em sua vida. Chegou em Porto Alegre aos 13 anos para estudar, em regime de internato, no Colégio Militar de Porto Alegre. E é ali que começa a nascer seu namoro com as palavras. Na revista Hyloea, do próprio Colégio, Quintana dá seus primeiros passos como escritor.
Cinco anos depois vai trabalhar como caixeiro (atendente) na Livraria do Globo, contrariando seu pai, que queria ver o filho doutor. Ali se estabelece uma relação longa e riquíssima para os dois lados. Porém, ele logo voltaria à fronteira, para trabalhar na farmácia da família. No espaço de um ano, Quintana perde a mãe e o pai, permanecendo em Alegrete até 1929. No ano seguinte, se deu a sua estréia na redação do jornal O Estado do Rio Grande.
Ao voltar para Porto Alegre, Quintana passa a se dedicar por completo à literatura, traduzindo grandes autores universais para a Livraria do Globo. Em 1940, é publicada A Rua dos Cataventos, o primeiro de muitos livros que marcariam sua obra.
Mário Quintana sempre foi considerado um gênio da poesia. Seu estilo simples e as imagens que criava com seus poemas continham um toque lúdico, que encantava seus leitores. Uma das facetas mais presentes na sua poesia sempre foi o “mundo mágico” que inventava com as palavras. Não é a toa que as crianças mereceram atenção especial do poeta, através de vários livros dedicados ao público infantil.
Quintana foi, sobretudo, poeta, mas escreveu em prosa, traduziu livros, assinou colunas em jornais (especialmente o Caderno H, no Correio do Povo, por muitos anos) e foi um grande frasista. Teve também sua obra traduzida e publicada no exterior, além de ter participado de várias antologias, no Brasil e fora dele.
Por ter sido o que foi, por ter escrito o que escreveu, Quintana é eterno. O anjo poeta deve andar por aí, passeando pelo centro da cidade e dizendo baixinho:
Todos esses que aí estão,
Atravancando meu caminho,
Eles passarão,
Eu passarinho...
Mário por ele mesmo
Nasci em Alegrete, em 30 de julho de 1906. Creio que foi a principal coisa que me aconteceu. E agora pedem-me que fale sobre mim mesmo. Bem! Eu sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente. Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão. Ah! mas o que querem são detalhes, cruezas, fofocas... Aí vai! Estou com 78 anos, mas sem idade. Idades só há duas: ou se está vivo ou morto. Neste último caso é idade demais, pois foi-nos prometida a Eternidade.
Nasci no rigor do inverno, temperatura: 1grau; e ainda por cima prematuramente, o que me deixava meio complexado, pois achava que não estava pronto. Até que um dia descobri que alguém tão completo como Winston Churchill nascera prematuro - o mesmo tendo acontecido a sir Isaac Newton! Excusez du peu... Prefiro citar a opinião dos outros sobre mim. Dizem que sou modesto. Pelo contrário, sou tão orgulhoso que acho que nunca escrevi algo à minha altura. Porque poesia é insatisfação, um anseio de auto-superação. Um poeta satisfeito não satisfaz. Dizem que sou tímido. Nada disso! sou é caladão, introspectivo. Não sei porque sujeitam os introvertidos a tratamentos. Só por não poderem ser chatos como os outros?
Exatamente por execrar a chatice, a longuidão, é que eu adoro a síntese. Outro elemento da poesia é a busca da forma (não da fôrma), a dosagem das palavras. Talvez concorra para esse meu cuidado o fato de ter sido prático de farmácia durante cinco anos. Note-se que é o mesmo caso de Carlos Drummond de Andrade, de Alberto de Oliveira, de Erico Verissimo - que bem sabem (ou souberam) o que é a luta amorosa com as palavras.
(Texto escrito pelo poeta para a revista Isto É de 14/11/1984)
O filme "O Carteiro e o Poeta" é um excelente obra que encanta por sua simplicidade. Sem grandes efeitos visuais ou sonoros, o filme resgata o sabor da descoberta, a alegria que se tem quando descobrimos algo importante e de valor. A meu ver, a mensagem que o filme busca passar é a importância da amizade e do amor.
O filme também relaciona o senso comum com a ciência. Em um trecho Neruda diz que quando se explica uma poesia, ela se torna banal. Transpondo essa frase para uma relação entre senso comum e ciência, pode-se dizer que por mais que a ciência tente explicar tudo, sempre haverá sentimentos e momentos que não poderão ser explicados. O senso comum prevalecerá em alguns momentos.
Em outra cena , o carteiro pergunta à Neruda: como virar um poeta? A resposta de Neruda é simples e curta: Para virar poeta, caminhe na costa (do mar). Muitas vezes, buscamos respostas que estão diante de nossos olhos.
Por outro lado, grandes descobertas surgem sem que se tenha a intenção. O carteiro conseguiu criar uma metáfora simplesmente em uma conversa à beira do mar. Assim também, as respostas da ciência podem surgir, sem que se busque por ela, como por exemplo Isaac Newton quando descobriu a teoria da gravidade a partir de uma maçã que caiu em sua cabeça.
E por último, deixo aqui uma frase que Neruda citou no filme: "pessoas com força de vontade conseguem mudar". Pense nisso!
Falar sobre poesia no cinema é muito díficil. Usar uma estrura poética é comum no cinema, mas fazer citações textuais é mais complicado e raramente agrada o grande público, uma das raras excessões é o "O Carteiro e o Poeta", que agradou os críticos e fez uma carreira até que razoável entre o público norte-americano, que não suporta filmes em outras línguas (neste caso o italiano). O diretor Michael Radford conseguiu colocar humor e drama de maneira equilibrada , com um tom suave sem ser superficial ou chato. Massimo Troisi, que fez o papel do carteiro, faleceu poucas horas depois de concluída a filmagem. Ele passou anos tentando realizar este projeto, e o fez de maneira exuberante. A trilha sonora, vencedora do Oscar, assim como as paisagens, são inesquecíveis.
Ficha Técnica
Título Original: Il Postino
Gênero: Romance
Tempo de Duração: 109 minutos
Ano de Lançamento (Itália): 1994
Estúdio: Miramax Films / Blue Dahlia Productions / Cecchi Gori Group Tiger Cinematografica / Esterno Mediterraneo Film / Penta Films, S.L.
Distribuição: Miramax Films
Direção: Michael RadfordRoteiro: Anna Pavignano, Michael Radford, Furio Scarpelli, Giacomo Scarpelli e Massimo Troisi, baseado em livro de Antonio Skármeta
Produção: Mario Cecchi Gori, Vittorio Cecchi Gori e Gaetano Daniele
Música: Luiz Enríquez Bacalov
Direção de Fotografia: Franco Di Giacomo
Desenho de Produção: Lorenzo Baraldi
Figurino: Gianna Gisi
Edição: Roberto Perpignani
Elenco
Massimo Troisi (Mario Ruoppolo); Philippe Noiret (Pablo Neruda); Maria Grazia Cucinotta (Beatrice Russo); Renato Scarpa (Telégrafo); Linda Moretti (Donna Rosa); Mariano Rigillo (Di Cosimo); Anna Bonaiuto (Matilde) e Bruno Alessandro (Pablo Neruda - voz).
Prêmios e Indicações
Oscar - 1996
Categoria: Ator - Indicado, Massimo Troisi
Categoria: Filme - Indicado, Gaetano Daniele - Indicado, Mario Cecchi Gori - Indicado, Vittorio Cecchi Gori
Categoria: Melhor Diretor - Indicado, Michael Radford
Categoria: Roteiro Adaptado - Indicado, Anna Pavignano- O ator Massimo Troisi recebeu uma indicação póstuma. - Indicado, Michael Radford- O ator Massimo Troisi recebeu uma indicação póstuma. - Indicado, Furio Scarpelli- O ator Massimo Troisi recebeu uma indicação póstuma. - Indicado, Giacomo Scarpelli- O ator Massimo Troisi recebeu uma indicação póstuma. - Indicado, Massimo Troisi- O ator Massimo Troisi recebeu uma indicação póstuma.
Categoria: Trilha Sonora Original (Drama) Vencedor, Luis Enríquez Bacalov
Academia Britânica - Indicado aos Prêmios de Melhor Roteiro Adaptado e de Melhor Ator (Massimo Troisi)
Prêmios:
Academia de Hollywood - Oscar de Melhor Trilha Sonora Academia Britânica - Prêmio Anthony Asquith de Melhor Música Academia Britânica - Prêmio de Melhor Filme em Língua não Inglesa Academia Britânica - Prêmio David Lean de Melhor Direção Academia Japonesa - Prêmio de Melhor Filme Estrangeiro Prêmios David di Donatello - David de Melhor Edição Prêmios Amanda, Noruega - Amanda de Melhor Filme Estrangeiro Sindicato Italiano dos Críticos de Cinema - Prêmio de Melhor Música Festival Robert, Copenhagen - Prêmio de Melhor Filme Estrangeiro Festival de São Paulo - Prêmio do Público (Michael Radford)
Você sabia?: - O ator e roteirista Massimo Troisi morreu de ataque cardíaco apenas um dia após a conclusão das filmagens de O Carteiro e o Poeta.
Sinopse
Por razões políticas o poeta Pablo Neruda (Philippe Noiret) se exila em uma ilha na Itália. Lá um desempregado (Massimo Troisi) quase analfabeto é contratado como carteiro extra, encarregado de cuidar da correspondência do poeta, e gradativamente entre os dois se forma uma sólida amizade.
A princípio distante, o poeta acaba cativado pela candura do carteiro, o qual, por sua vez, fica encantado com essa aproximação. Apaixonado pela filha da proprietária da taverna local, a bela Beatrice Russo (Maria Grazia Cucinotta), Mario tem a esperança de que "Don Pablo" o ajude a conquistar o coração da sua amada.
O maior trunfo de O carteiro e o poeta é a irresistível interpretação de Massimo Troisi. O ator constrói seu personagem na medida certa, quase minimalista, em delicados meios-tons: contido, hesitante, tímido, deixando a emoção fluir com um misto de recato e humor. Para contrabalançar, o Neruda de Philippe Noiret (o grande ator francês de A comilança, de Marco Ferreri, e Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore, entre muitos outros) é um indivíduo em plena maturidade artística e emocional, autoconfiante e ciente do próprio charme e da admiração que sua figura pública provoca.
"Pequenas demostrações de meus trabalhos com bijus"
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