quinta-feira, 19 de novembro de 2009

"VISTA CANSADA"



"VISTA CANSADA"

(Otto Lara Resende)




Acho que foi o Hemingway quem disse que olhava cada coisa à sua volta como se a visse pela última vez. Pela última ou pela primeira vez? Pela primeira vez foi outro escritor quem disse. Essa idéia de olhar pela última vez tem algo de deprimente. Olhar de despedida, de quem não crê que a vida continua, não admira que o Hemingway tenha acabado como acabou.

Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver, disse o poeta. Um poeta é só isto: um certo modo de ver. O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê não-vendo. Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio.

Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta. Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho, você não sabe. De tanto ver, você não vê. Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio do seu escritório. Lá estava sempre, pontualíssimo, o mesmo porteiro. Dava-lhe bom-dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência. Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer.

Como era ele? Sua cara? Sua voz? Como se vestia? Não fazia a mínima idéia. Em 32 anos, nunca o viu. Para ser notado, o porteiro teve que morrer. Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser também que ninguém desse por sua ausência. O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. Mas há sempre o que ver. Gente, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos.

Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.


(Texto publicado no jornal “Folha de S. Paulo”, edição de 23 de fevereiro de 1992)




"Às vezes, é preciso esquecer
um pouco a pressa e prestar
mais atenção em todas as
direções ao longo do caminho...
A pressa cega os olhos.
E deixamos de observar
tantas coisas boas e belas
que acontecem ao nosso redor.
Às vezes, o que precisamos
está tão próximo...
Passamos, olhamos, mas não
enxergamos!
Não basta apenas olhar.
É preciso saber olhar com os olhos,
enxergar com a alma e
apreciar com o coração."


Texto: Recebido de uma amiga por e-mail.

Imagens: Google.

Música: Ben Harper - Amen Omen


Um comentário:

Anônimo disse...

Yara,
obrigada pelos e-mails de conteúdo, beleza, liçao de vidavalores e os hilários que vc me envia...
Eu os curto muito..
Entrei no seu blog...simplesmente, amei!!!
Sempre a tive como uma mulher mais do que especial e, mesmo assim que surpresa boa com sua página virtual....Superou minhas expectativas.
Vou retroceder no tempo, pra ler todas as mensagens que posso lá encontrar.
Pode ser bem coruja com "seus amores". Eles estao lindos!!
Abreijos e um bom findi!!!
Magda Calil